sábado, 20 de fevereiro de 2010

(R)evolução carnavalesca


Apesar de ser um legítimo representante da fauna carioca, não sou um grande entusiasta do carnaval. Durante toda a minha infância eu mal sabia o que eram os desfiles, uma vez que sempre viajava para um mesmo local (um sítio enorme, com árvores frutíferas e sem televisão). Nos últimos anos, passei a prestar mais atenção aos desfiles por uma única razão: Paulo Barros. Todos sabem que eu adoro um espetáculo e, quando em 2004 eu vi aquele carro genial do DNA humano, num desfile da Unidos da Tijuca, eu pirei. E vi que o carnaval poderia ir além daqueles desfiles tradicionais onde a grande novidade era o conjunto de plumas e neons e suas diferentes colorações. Não sou da geração do revolucionário Joãozinho Trinta (que realmente fez desfiles bem interessantes), então minha única boa referência carnavalesca era a evolução high tech de Renato Lage, na Mocidade, na década de 90 (aliás, gosto muito da Escola e até hoje não sei por quê). Os carnavais de Lage fugiam da enfadonha arquitetura clássica que recheavam quase todas as Escolas até então. Daí surgiram desfiles mais provocadores (como o desfile sobre campanhas de doações, bacana à beça) e menos formais (já que a frieza estética de Rosa Magalhães, na Imperatriz e da comissão luxuosa da Beija Flor davam a tônica do lugar).
Eis que surge Paulo Barros propondo um trabalho mais libertário e extremamente criativo. Das alegorias humanas até a inversão da lógica estrutural de seus desfiles, que desafiam não só o expectador, mas os jurados e seus conceitos de julgamento crítico. Tanto que por muito tempo foi injustamente incompreendido e chegou a ser demitido após sua (polêmica) passagem pela Viradouro, em 2008.
Esse ano foi o ano da virada, já que Barros foi campeão com o enredo “É segredo!”, voltando à Escola “Unidos da Tijuca”, onde havia surgido para o mundo. Pessoalmente nem considero esse o seu melhor trabalho (o desfile de 2005 “Entrou pelo lado saiu pelo outro... Quem quizer que invente outro” - que está no vídeo acima - foi irretocável); apesar de uma das melhores comissões de frente da história do carnaval (acabando com a hegemonia da Imperatriz no quesito) e do alto nível de seus três primeiros carros (a alegoria do Incêndio e a dos Jardins da Babilônia arrepiaram de tão bem boladas), o conjunto do enredo tem lá suas falhas. Mas mereceu sim o título, principalmente pela capacidade de impressionar, o que nenhuma escola conseguiu.
O que mais entusiasma é que a capacidade de criatividade de Paulo Barros parece não ter limites, o que promete muita expectativa para os desfiles dos próximos anos. Eu, mesmo em viagem, fiquei em frente a Tv para ver qual a “loucura” da dez do carnavalesco. E, mesmo sendo inferior aos outros desfiles dele mesmo, fiquei bem satisfeito com o que vi.
Paulo Barros merece o meu respeito e o espaço aqui por mostrar inconformismo diante daquilo que ele entende como arte e fazer com que não perdemos o entusiasmo de assistir
a um desfile de carnaval. Até para os reincidentes como eu...

Dica de Música: “Fazenda” (Milton Nascimento)

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