terça-feira, 23 de março de 2010

Dança Freudiana

Um de meus grandes ídolos no cinema é o cineasta italiano Federico Fellini, que me arrebatou com a obra-prima “Noites de Cabíria” (de 1957). Ainda não assisti a toda sua filmografia, mas se existe uma consonância em sua obra é a forma idílica com que olha para a relação de um personagem com a vida. Para muitos sua verdadeira obra-prima, “Oito e meio” é um de seus filmes mais emblemáticos, onde retrata a crise criativa de um diretor que busca nas lembranças de mulheres importantes de seu passado, uma perspectiva para o futuro.
Depois que o argumento fez sucesso na Broadway, eis que o cinema americano resolveu encarar a difícil missão de adaptá-lo, como um musical. E a grandeza do projeto começou pelo elenco: Daniel Day-Lewis, Nicole Kidman, Judi Dench, Marion Cotillard, Penélope Cruz, Kate Hudson, Sophia Loren... desses, só Kate Hudson nunca foi premiada com Oscar. E o filme é dirigido por Rob Marshall, que fez um trabalho convencional (mas premiado) em “Chicago” e excessivamente melodramático em “Memórias de uma gueixa“. Apesar das credenciais, o filme – como um todo – não funciona, ou melhor, não entusiasma. Os números musicais são ótimos, mas creio que quando um musical só engata quando entram os números musicais, isto se torna um problema. Ao narrar esse hiato criativo de Guido, personagem de Day-Lewis, o roteiro e a direção não conseguiram imprimir um ritmo plausível ou uma solução narrativa mais coerente com a energia de um musical, mesmo os mais sombrios, como neste caso. Marshall restringe demais as possibilidades cênicas da crise existencial de seu protagonista, o que torna o filme monótono e irregular. No que sabe fazer melhor, o diretor capricha, como nas apresentações de Hudson e (na melhor música do filme) em “Be italian”, com uma participação inesperada (e esquisita) da cantora Fergie.
Pode ser que tenha havido aqui um excesso de expectativa, mas “Nine” não disse a que veio como cinema... Talvez como inspiração para futuros clipes musicais a coisa desça melhor. Neste caso, creio que Fellini nem se importaria...

Dica de Música: “Be italian” (Fergie)

Quero ser grande!

Spike Jonze é um diretor “esquisitamente” genial. As metáforas implícitas em “Quero ser John Malcovick” e o deboche velado em “Adaptação” revelam que seus filmes seduzem nossas retinas pela arte da instigação. Isso é quase uma anomalia no cinema atual. Quando decidiu dirigir “Onde vivem os monstros”, uma adaptação de um famoso (lá fora) livro infantil do estadunidense Maurice Sendak, lançado há mais de 40 anos, eu não sabia mesmo o que esperar. O livro, mais ilustrativo, tem pouco mais de dez frases e verter isso para um longa de uma hora e meia era um desafio e tanto. “Onde vivem os monstros” segue as aventuras de Max, um menino carente de atenção – como todos da sua idade – que parte para um mundo paralelo e desconhecido, a dos Monstros Selvagens, onde a travessura é a lei e ele vira o rei. Resquícios de “Crônicas de Nárnia”? Esqueça. O filme é até vendido como infantil, para capitalizá-lo, mas se trata de uma produção muito mais dimensionada do que esse alcunha possa supor (mesmo com a dignidade atual dos filmes infantis da Pixar). Com sua estética crua e monocromática, Jonze continua mantendo seu interesse em justificar um indivíduo pela simbologia de sua mente, como feito brilhantemente no já citado “Quero ser John Malcovick”, já que o filme se vale de seus aparentes “monstros” para decodificar todas as faces da personalidade da criança. Num mundo paralelo, Max exercita sua imaginação e acaba encontrando um caminho para amadurecimento. E o filme fala justamente desse processo precoce, ainda que sob as bases da fantasia, resultando num paradoxo que só o cineasta conseguiria evocar, de forma tão perene.
Impressionante também o trabalho feito com os bonecos animatrônicos, que incluem expressões faciais (digitais) e em nenhum momento deixam de passar verossimilhança, assim como todo o design do filme que opta eficientemente em situar toda a história em um ambiente real, sem alegorias que esse universo poderia sugerir.
Enfim, como todo filme De Spike Jonze, é uma história estranha, mas absolutamente reconhecível. E, dessa vez, esse reconhecimento também se dá pelo encanto com que seu resultado alcança no espectador.

Dica de Música: “Amie" (Damien Rice)

A última ceia

O primeiro filme de cineastas promissores geralmente causa expressiva expectativa, principalmente quando se trata da estréia na direção de um dos atores mais incensados do país. Lançado no ano passado, “Feliz Natal” marca o lançamento de Selton Mello na carreira de diretor cinematográfico, e ele não procura caminhos fáceis para tal.
“Feliz Natal” conta a trama de um homem (Caio, personagem de Leonardo Medeiros) que após muitos anos, visita sua família na noite de natal (e com toda liturgia que isso implica). A presença dele faz com que a vida de todos seja alterada, enquanto ele próprio está em busca de sua identidade. A propriedade com que a história é apresentada na tela é conseguida pelo paralelismo que se dá com o trabalho de Selton, que também busca uma identidade seja pela estética, seja pelo discurso. O filme, que tem o roteiro do próprio, consegue verter em opressão todo o paradigma de uma ceia familiar desestruturada, onde cada ponto de vista torna-se legítimo quando olhado de perto. É emocionalmente pesado e racionalmente complexo. Nota-se também que cai um pouco na armadilha do estilismo excessivo, típico de que quem está experimentando em uma primeira produção. O elenco é muito bom, com as curiosas participações do sumido Paulo Guarnieri e do humorista Lúcio Mauro, que arrebata em um personagem tomado pelo rancor. Mas é Darlene Glória quem rouba todas as cenas, como uma matriarca alcoólatra que expõe todo o declínio familiar que as aparências procuravam esconder. É de espantar como a atriz ficou tanto tempo longe dos cinemas...
Selton, atualmente, já está filmando seu segundo longa que se chamará “O palhaço”, com o próprio protagonizando, ao lado de Paulo José. Pelo que já foi divulgado, será um filme mais solar, ainda que falando sobre um homem em busca de um sentido na vida. Parece que ele gosta dessas radiografias e pelo primeiro filme parece estar encontrando o seu caminho.

Dica de Música: “Dois barcos” (Los Hermanos)

sexta-feira, 19 de março de 2010

Polaróides urbanas

“... Eu vi o lado radical do amor. Eu vi algolagnia, sexo e dor. Os dois lutando, ela descendo a escada do inferno. Ele, ereção, voltagem. Ela, taquicardia, descargas de adrenalina...”

Esse trecho do primeiro livro da autora Patrícia Melo “Acqua Toffana”, lançado em 1994, dá um dimensão da voltagem quase psíquica que a história alcança em suas quase 140 páginas.
Acabei de ler recentemente o livro (o segundo dela que leio) e posso afirmar que é um dos melhores “primeiros livros” (já que foi sua estréia em romances literários) que já li. É impressionante a habilidade de Patrícia em destrinchar a paranóia contemporânea dos seres. Ela sempre admitiu a fortíssima influência do autor Rubem Fonseca em sua obra, e isso é bem notório, principalmente pela forma seca e sintética com que narra os acontecimentos. O livro se divide em duas histórias que incidem sobre o mesmo viés de brutalidade, sob um olhar íntimo e condescendente com o inter-locutor. Patrícia trata dos extremos com uma dinâmica impressionante para uma iniciante, e demonstra que seu nome iria mesmo fincar raízes na moderna literatura brasileira. O primeiro (e único) livro da autora que eu li foi o badalado “O matador”, que anos depois foi adaptado para o cinema por José Henrique Fonseca (por acaso, filho de Rubem Fonseca e marido da atriz Cláudia Abreu) como “O homem do ano”. Confesso que não gostei muito nem do livro, nem do filme. Talvez por reconhecer demais a inferência de Fonseca na trama, considerei o livro como mais do mesmo. Agora, após ler esse desconcertante “Acqua Toffana”, reconsiderei os méritos de Patrícia e vi que seu talento independe de referências para ser justificado (ela já está em seu sétimo romance).
“Acqua Toffana” é um livro mais do que recomendável e indicado para àqueles que conjugam seu prazer literário com o vigor latente da prosa realista.
Obs: A imagem que ilustra esse post é de uma adaptação do livro para uma peça teatral homônima, em São Paulo, estrelado em 2007 pela atriz Dani Barros (foto).

Dica de Música: “O que sobrou do céu?” (Rappa)

terça-feira, 16 de março de 2010

Quem tem medo de Lady Gaga ???

O que é essa tal de Lady Gaga? Com certeza é o que muitos se perguntam diante da persona que essa cantora (!) incorporou no Showbusiness e parece ter vindo para ficar. Não sou lá muito fã de suas músicas (me parecem uma coisa meio Cher pós-moderna), mas não consigo ficar indiferente a sua mise-en-scéne. Seus clipes são loucamente geniais, seu "figurino" vem acompanhados de discursos... divertidíssimos, e suas apresentações (como a do "MTV Awards") colocam no chinelo muitos números cênicos do Oscar, Garmmys e afins. Diria que ela sabe muito bem se vender, a ponto de eu estar falando nela por aqui. Ela acaba de lançar o clipe de seu single "Telephone", que canta com ninguém menos que Beyonce. O hit é banaca (a produção da música usa os toques sonoros de um telefone), mas o clipe é o supra sumo do liquidificador pop que torna nossa vida mais divertida. Andy Warhol e Salvador Dalí devem estar se revirando no túmulo de satisfação. Prestem atenção no (divertido) trabalho de concepção (há várias referências ao cinema) e direção de arte do clipe. Obra-prima!

Vão se os anéis...

O excesso de paixão de um diretor por um projeto pode ser nocivo para seu resultado final. Martin Scorcese caiu nesse paradigma em dois de seus últimos filmes: “Gangues de New York” e “O aviador”. Almodóvar também, no recente “Los Abrazos rotos”. Como se pode ver, esse é um pecado dos grandes, e depois de acertar, tanto na trilogia “O senhor dos anéis”, quanto no remake de “King Kong”, o neozelandês Peter Jackson caiu nas armadilhas passionais de suas pretensões em seu novo e aguardadíssimo filme “Um olhar do paraíso”.
Baseado no romance da norte-americana Alice Sebold, “Uma vida interrompida”, publicada em 2002, o filme narra a história de Susie Salmon, que aos 14 anos foi estuprada, assassinada e estripada, mas não morreu completamente. Algo estranho aconteceu com ela. De onde está - não é o paraíso, mas também não é o inferno, e não parece ser o purgatório - ela pode observar sua família e seu assassino e torcer para que ele seja preso.
A trama em si é muito boa e, talvez seja o contraponto positivo frente às irregulares escolhas do diretor. Jackson tratou o tema com excessivo enfoque lisérgico o que fez com que todo peso da história seja enfraquecido. Mesmo sendo lindamente interpretada por Saoirse Ronan (que conquistou meu coração em “Desejo e reparação” e vem trilhando um caminho certo em Hollywood), aquele paralelismo que se dá entre o mundo real e o pós-morte não se justifica e nem ajuda no decorrer da história. Parece que Jackson ficou tão encantado com o livro que quis inflar toda sua transposição acabando por expor personagens sem contexto (uma “personagem emo” que tem ligação com os mortos), tramas totalmente desconexas (a participação de Susan Sarandon, a fuga da personagem de Rachel Weisz) e soluções constrangedoras (o desfecho do antagonista e o beijo final dos protagonistas). O longa não consegue impor um ritmo ou fluência narrativa, uma vez que se perde em desvios equivocados e que acabam distanciando o espectador da história.
Se o filme tem um ponto forte é seu elenco que, além da ótima Saoirse, tem as sempre brilhantes performances de Susan Sarandon (aqui fazendo o que pode num personagem perdido na trama) e Rachel Weizs (suas lágrimas são sempre verdadeiras). Mark Whalberg me surpreendeu pela sensibilidade com que expõe a perda de uma filha, assim como o bom trabalho de Rose McIver, irmã da Susie, que vira o grande esteio do filme em sua metade final. Mas é Stanley Tucci, que vive o psicopata assassino – indicado ao Oscar de ator coadjuvante – quem entrega o melhor desempenho, provando que sua versatilidade não tem limites, vide seus trabalhos em “O diabo veste Prada” e “Julie & Julia”. A construção que fez de sua personagem é para aplaudir de pé (e só nos faz lamentar a forma idiota que o roteiro encontrou para seu desfecho).
É difícil de entender como Peter Jackson conseguiu transpor um livro bem mais complexo e difícil como “O senhor dos anéis” para os cinemas e neste, relativamente mais “filmável”, tenha errado tanto. Ainda que o filme deixe transparecer a mão forte e criativa do cineasta, a sensação é que, entre a grandiloquencia e a pretensão, o filme acabou perdendo o seu sentido. Não foi dessa vez, Peter Jackson...


Dica de Música: "Um dia, um adeus" (Vanessa da Matta)

Passatempo

Creio ter feito parte da última geração de crianças consumidoras vorazes dos filmes de animação tradicional (em 2D) da Disney. Lembro do estrondoso sucesso e do meu encanto com a verdadeira tragédia Shakespeareana chamada “O Rei Leão”, assim como o resgate fabular em “Aladdin” ou a revisão de valores em “A bela e a fera”. Os desenhos, mais rudimentares em sua concepção, eram eficientes na arte de encantar, ainda no período pré-Toy Story, onde os efeitos tridimensionais não contavam como subsídio para a magia vista na tela. Talvez seja por tudo isso que tenha gostado tanto da nova incursão da Disney por essa, digamos, técnica em “A princesa e o sapo”. O filme é uma delícia sendo baseado numa história original escrita pelos cineastas John Musker e Ron Clements (“A pequena sereia”, “Aladdin” e “Hércules”), que também assinam a direção do filme. Alardeado como o primeiro filme da Disney com uma protagonista negra, o filme é um conto de fadas tradicional, mas com a graça de ser baseado em New Orleans , imerso na cultura do berço do jazz e do blues, consequentemente, com uma trilha sonora característica.
Ainda que a trama não apresente novidades, nem tenha a genialidade de roteiro da Pixar, eu diria que o desenho serve como um analgésico prosaico no gênero. Neste caso, sua verve simplória é bem vinda e o sorrisinho no canto da boca, após o final da sessão é a prova que o resultado é relativamente bem sucedido.

Por outro lado, resolvi encarar uma sessão do remake tupiniquim do “High School Musical”, já que havia ganhado um ingresso. A franquia original (dois telefilmes e um filme) é sim, mais uma cartilha da Disney para aumentar seus royaltys, obedecendo ao modelo republicano de juventude. Mas para quem gosta de musicais reconhece que existe ali uma qualidade artística, às vezes, mais presentes do que em muitos musicais adultos. Tira-se o roteiro (mastigável) e o filme fica muito bom, com seus números perfeitamente coreografados e direção musical acima da nota. Na adaptação brasileira, dirigida pelo estreante César Rodrigues, nada se salva: o elenco (salvo raríssimas exceções) não canta, não dança e – pior – nem interpreta. Surpreendentemente esse elenco foi escolhido numa audição (!!!) feita pela TV... A direção até tenta seguir a cartilha americana, com uma direção de arte bem representada, mas sabe quando as coisas não funcionam? Fora que é meio incômodo assistir a uma representação tão distante da nossa cultura, inclusive educacional. E essas adaptações da Disney pecam sempre nessa questão (lembram do desastroso “Donas-de-casas desesperadas” remake capenga da série “Desperate Housewives” na RedeTv ?). E, cá entre nós, a presença de Wanessa Cam... ops, agora só Wanessa, não acrescenta muito ao todo.
Bem, se o filme tem um destaque ele chama-se Felipe Quadanucci, que interpreta um aluno mais sensível e interado sobre música. Seu desempenho e carisma apontam para um promissor caminho na carreira. E só. Eu diria que os 7 milhões gastos nesse filme poderia ter sido investido em coisa melhor.


Dica de Música: “Um girassol da cor do seu cabelo” (versão: Cláudia Ohana)