quarta-feira, 31 de março de 2010

Mais uma dose de sangue, por favor!

Há poucas semanas da estréia da aguardada terceira temporada de “True Blood”, a HBO liberou o mais novo cartaz da série que, mantém a mesma criatividade da atração. Lógico que, como a maioria das séries que gosto e acompanho, estou atrasado, mas não posso deixar de salientar o retorno da série. Ainda vou escrever melhor sobre o programa em si (assim que eu acabar a segunda temporada, mas no momento estou submerso no último ano de “Lost”), mas olhem que bacana esse cartaz que traduz muito do que a série representa hoje no cenário pop. Não adianta, a HBO continua trazendo o melhor e mais ousado para um veículo tão careta e apático como a TV.



Dica de Música: “Calada noite preta” (Vange Leonel)

A razão de Cristo

Os filmes dos Irmãos Cohen geralmente causam dois tipos de reações a quem os assiste: estranhamento ou encantamento. Como trabalham sob as matizes de um universo muito próprio, os diretores produzem filmes que se auto-ironizam e levantam discussões sob perspectivas bem originais, ainda que, muitas vezes inusitadas.
Apesar de só ter visto (e conhecido) a filmografia deles a partir do primeiro sucesso de crítica, com “Fargo”, ou seja, não assisti a seus primórdios com “Gosto de sangue” e “Arizona nunca mais”, gosto bastante da loucura embasada de seus filmes (à exceção do fraco “O amor custa caro”). Até para evocar os desígnios de uma América decadente, no oscarizado “Onde os fracos não têm vez” (que conjunturalmente é até imperfeito), os Cohen buscam uma forma interessante (na forma e no conteúdo) para persuadir reflexão de onde menos esperamos.
Indicado ao Oscar de melhor filme desse ano, “Um homem sério” é mais um desses exercícios estéticos dos diretores. Nesse caso, o exercício foi levado ao extremo, quase ao nível do hermetismo. Mais surpreendentemente, de forma positiva.
Ambientada no final da década de 60 (em uma direção de arte estilística) “A serious man” (título original) é a história de Larry Gopnik (vivido pelo ator Michael Stulhbarg), um professor de física infeliz que se esforça para fazer o certo e se sente perseguido pela incerteza e o desespero que toma sua vida com o pedido de divórcio da esposa, a estagnação de seu desequilibrado irmão, dentro de sua casa e as ameaças de um aluno que quer melhorar sua nota. Utilizando o terreno conhecido do humor negro, os Cohen satirizam o universo judaico de uma região suburbana dos EUA e, atrelam a essa sátira um melancólico tratado sobre a relação homem-valores-Deus. E tudo sob um verniz técnico primoroso e, assim como o ótimo filme anterior deles “Queime depois de ler”, uma trilha sonora perfeitamente integrada a trama.
Assumo que não é um filme para todos os gostos, principalmente pelo final, que não determina idéias e aposta na imaginação conclusiva do espectador. Mas vale a pena acompanhar as abstrações do roteiro (que foi escrito pelos próprios), pois o embate proposto entre as bases da razão e da doutrinação da fé resulta num filme, no mínimo, estimulante.



Dica de Música: “Autumn in New York ” (Billie Holliday)

sexta-feira, 26 de março de 2010

A ilha de Scorcese

Martin Scorcese é quase uma unanimidade no meio daqueles que tem o cinema como religião. Muitos o consideram como “o” maior cineasta vivo. Apesar de reconhecer a sua genialidade em “filmes-marco” como os interessantíssimos “Táxi Driver” e “Caminhos perigosos”, apenas o vejo como um dos mais talentosos diretores em Hollywood hoje, mas que também sucumbe a sua própria pretensão. Afinal, filmes como “Cabo do medo” não são exemplares de grandes diretores. “Vivendo no limite”, minha estréia traumática em seu universo, é o cúmulo do discurso vazio. “Gangues de Nova Iorque” e “O aviador” são filmes tão ambiciosos que se bastam em suas próprias idiossincrasias: Não há diálogo com o espectador. Nos últimos anos, parece que Scorcese vem procurando reavaliar esse diálogo, casando seu talento e audácia estética com certa despretensão ideológica; consequentemente o seu primeiro Oscar de melhor filme veio com sua adaptação de um filme asiático, o ótimo “Os infiltrados”, em 2006.
Seguindo esse raciocínio artístico, ele acabou de estrear seu mais novo filme “A ilha do medo”, adaptação de um livro de Dennis Lehane (com o qual eu falei num post, no início do mês) “Passageiro 67” . Mantendo a bem sucedida parceria com Leonardo DiCaprio (parceria essa, que só trouxe maturidade ao astro) e seguindo um caminho seguro,pela literatura deste autor (que já rendeu uma obra-prima “Sobre meninos e lobos” e um bom filme “Medo da verdade”), o cineasta comprovou sua genialidade mesmo em um filme tão intricado e complicado de se adaptar.
Em 1954, Teddy Daniels (DiCaprio) investiga o desaparecimento de um paciente no Shutter Island Ashecliffe Hospital, que fica numa ilha um tanto medonha. No local, ele descobre que os médicos realizam experiências radicais com os pacientes, envolvendo métodos ilegais e antiéticos. Óbvio que em se tratando de um livro de Lehane, nem tudo é o que parece ser. E, neste caso, os conflitos internos legitimam ainda mais o andamento da história. Por isso até que o mistério, neste caso, é o menos importante; e esse descompromisso só estimulou a inteligência de Scorcese. Utilizando referências estéticas de filmes antigos como “O gabinete do Dr. Caligari”, de 1920, o diretor potencializou a áurea de suspense psicológico, com espertos maneirismos claustrofóbicos que confabulam com clima conspiratório da trama.
Mais uma vez é preciso destacar a grande performance de DiCaprio, que se firmou mesmo como grande ator desta geração. Mark Ruffalo é outro que tem uma atuação brilhante, num personagem dificílimo. Ben Kingsley, Patrícia Clarkson e Michelle Williams também se destacam, pela dignidade com que encaram seus papéis.
Apesar de tido como um filme menor do diretor, particularmente, considero esse um de seus melhores filmes. Na verdade, fica claro o desprendimento da grandiloqüência dele, até porque esse filme é tão grandioso e complexo como “O aviador”, mas a forma como encara esse desafio é bem mais orgânica. E isso é magistralmente comprovado no fim do filme, quando se concentra em relatar a história trágica da família do protagonista. São cenas tão fortes (no sentido mais substancial da palavra) e filmadas de uma forma tão vigorosa, que ali nos lembramos o que e até aonde pode ir o cinema de Scorcese.

Dica de Música: ”O mundo” (Pedro Luís e a parede e Ney Matogrosso)

quinta-feira, 25 de março de 2010

O que será o amanhã?

Dentre os 10 indicados ao Oscar de Melhor Filme, em 2010, destacou-se um título que pouca gente acreditava que poderia estar ali: “Educação”, filme inglês dirigido por Lone Scherfig, que surpreendeu também por uma indicação (merecida) de melhor atriz para a quase novata Carey Mulligan.
“An education” (título original) tem uma trama aparentemente singela sobre o processo de transição da jovem Jenny (Mulligan) da adolescência à idade adulta, na Grã-Bretanha dos anos 60. Mas não se engane. O filme vai muito mais além, principalmente por investigar com um olhar britanicamente corrosivo, a perda da inocência numa época de passagem entre o duro período pós-Segunda Guerra e a futura década da liberalidade. Quando somos lançados ao dilema pessoal de protagonista – seguir uma carreira acadêmica promissora ou largar todas as convenções para viver a vida de forma mais aventureira e excitante – acabamos participando dos efeitos da complexidade de uma escolha. E é aí que o filme se mostra tão grandioso. E o roteiro, do hypado escritor Nick Hornby, tão valioso.
Carey Mulligan, que deu uma turbinada na precoce carreira com sua indicação, tem um charme indiscutível e consegue entender todas as (difíceis) nuances de Jenny. Sua ingenuidade não é um arquétipo, o que comprometeria todo o resultado. Já em seu primeiro filme, quando fazia uma das irmãs de Keira Knightley em “Orgulho e preconceito”, já demonstrava no mínimo, muito carisma em cena. Merece o reconhecimento (já está escalada para, pelo menos dois grandes filmes para este ano, dentre eles, o esperado “Wall Strret 2” ).
“Educação” é um filme que levanta discussões. E talvez a maior delas seja a de que o mundo mudou, e a sociedade mantém o seu constante movimento de translação em volta dele.

Dica de Música: “Meu” (Djavan)

terça-feira, 23 de março de 2010

Dança Freudiana

Um de meus grandes ídolos no cinema é o cineasta italiano Federico Fellini, que me arrebatou com a obra-prima “Noites de Cabíria” (de 1957). Ainda não assisti a toda sua filmografia, mas se existe uma consonância em sua obra é a forma idílica com que olha para a relação de um personagem com a vida. Para muitos sua verdadeira obra-prima, “Oito e meio” é um de seus filmes mais emblemáticos, onde retrata a crise criativa de um diretor que busca nas lembranças de mulheres importantes de seu passado, uma perspectiva para o futuro.
Depois que o argumento fez sucesso na Broadway, eis que o cinema americano resolveu encarar a difícil missão de adaptá-lo, como um musical. E a grandeza do projeto começou pelo elenco: Daniel Day-Lewis, Nicole Kidman, Judi Dench, Marion Cotillard, Penélope Cruz, Kate Hudson, Sophia Loren... desses, só Kate Hudson nunca foi premiada com Oscar. E o filme é dirigido por Rob Marshall, que fez um trabalho convencional (mas premiado) em “Chicago” e excessivamente melodramático em “Memórias de uma gueixa“. Apesar das credenciais, o filme – como um todo – não funciona, ou melhor, não entusiasma. Os números musicais são ótimos, mas creio que quando um musical só engata quando entram os números musicais, isto se torna um problema. Ao narrar esse hiato criativo de Guido, personagem de Day-Lewis, o roteiro e a direção não conseguiram imprimir um ritmo plausível ou uma solução narrativa mais coerente com a energia de um musical, mesmo os mais sombrios, como neste caso. Marshall restringe demais as possibilidades cênicas da crise existencial de seu protagonista, o que torna o filme monótono e irregular. No que sabe fazer melhor, o diretor capricha, como nas apresentações de Hudson e (na melhor música do filme) em “Be italian”, com uma participação inesperada (e esquisita) da cantora Fergie.
Pode ser que tenha havido aqui um excesso de expectativa, mas “Nine” não disse a que veio como cinema... Talvez como inspiração para futuros clipes musicais a coisa desça melhor. Neste caso, creio que Fellini nem se importaria...

Dica de Música: “Be italian” (Fergie)

Quero ser grande!

Spike Jonze é um diretor “esquisitamente” genial. As metáforas implícitas em “Quero ser John Malcovick” e o deboche velado em “Adaptação” revelam que seus filmes seduzem nossas retinas pela arte da instigação. Isso é quase uma anomalia no cinema atual. Quando decidiu dirigir “Onde vivem os monstros”, uma adaptação de um famoso (lá fora) livro infantil do estadunidense Maurice Sendak, lançado há mais de 40 anos, eu não sabia mesmo o que esperar. O livro, mais ilustrativo, tem pouco mais de dez frases e verter isso para um longa de uma hora e meia era um desafio e tanto. “Onde vivem os monstros” segue as aventuras de Max, um menino carente de atenção – como todos da sua idade – que parte para um mundo paralelo e desconhecido, a dos Monstros Selvagens, onde a travessura é a lei e ele vira o rei. Resquícios de “Crônicas de Nárnia”? Esqueça. O filme é até vendido como infantil, para capitalizá-lo, mas se trata de uma produção muito mais dimensionada do que esse alcunha possa supor (mesmo com a dignidade atual dos filmes infantis da Pixar). Com sua estética crua e monocromática, Jonze continua mantendo seu interesse em justificar um indivíduo pela simbologia de sua mente, como feito brilhantemente no já citado “Quero ser John Malcovick”, já que o filme se vale de seus aparentes “monstros” para decodificar todas as faces da personalidade da criança. Num mundo paralelo, Max exercita sua imaginação e acaba encontrando um caminho para amadurecimento. E o filme fala justamente desse processo precoce, ainda que sob as bases da fantasia, resultando num paradoxo que só o cineasta conseguiria evocar, de forma tão perene.
Impressionante também o trabalho feito com os bonecos animatrônicos, que incluem expressões faciais (digitais) e em nenhum momento deixam de passar verossimilhança, assim como todo o design do filme que opta eficientemente em situar toda a história em um ambiente real, sem alegorias que esse universo poderia sugerir.
Enfim, como todo filme De Spike Jonze, é uma história estranha, mas absolutamente reconhecível. E, dessa vez, esse reconhecimento também se dá pelo encanto com que seu resultado alcança no espectador.

Dica de Música: “Amie" (Damien Rice)

A última ceia

O primeiro filme de cineastas promissores geralmente causa expressiva expectativa, principalmente quando se trata da estréia na direção de um dos atores mais incensados do país. Lançado no ano passado, “Feliz Natal” marca o lançamento de Selton Mello na carreira de diretor cinematográfico, e ele não procura caminhos fáceis para tal.
“Feliz Natal” conta a trama de um homem (Caio, personagem de Leonardo Medeiros) que após muitos anos, visita sua família na noite de natal (e com toda liturgia que isso implica). A presença dele faz com que a vida de todos seja alterada, enquanto ele próprio está em busca de sua identidade. A propriedade com que a história é apresentada na tela é conseguida pelo paralelismo que se dá com o trabalho de Selton, que também busca uma identidade seja pela estética, seja pelo discurso. O filme, que tem o roteiro do próprio, consegue verter em opressão todo o paradigma de uma ceia familiar desestruturada, onde cada ponto de vista torna-se legítimo quando olhado de perto. É emocionalmente pesado e racionalmente complexo. Nota-se também que cai um pouco na armadilha do estilismo excessivo, típico de que quem está experimentando em uma primeira produção. O elenco é muito bom, com as curiosas participações do sumido Paulo Guarnieri e do humorista Lúcio Mauro, que arrebata em um personagem tomado pelo rancor. Mas é Darlene Glória quem rouba todas as cenas, como uma matriarca alcoólatra que expõe todo o declínio familiar que as aparências procuravam esconder. É de espantar como a atriz ficou tanto tempo longe dos cinemas...
Selton, atualmente, já está filmando seu segundo longa que se chamará “O palhaço”, com o próprio protagonizando, ao lado de Paulo José. Pelo que já foi divulgado, será um filme mais solar, ainda que falando sobre um homem em busca de um sentido na vida. Parece que ele gosta dessas radiografias e pelo primeiro filme parece estar encontrando o seu caminho.

Dica de Música: “Dois barcos” (Los Hermanos)