quarta-feira, 26 de maio de 2010

Robin Hood, o Grande ???

O diretor Ridley Scott sofre do mesmo mal que muitas vezes acomete Martin Scorcese: o pecado da grandiloqüência. É quando seus filmes levam-se a sério demais ou se perdem na grandiosidade do projeto, limitando qualquer sinal de profundidade. No caso de Ridley, isso foi
visto em "Gladiador" (mesmo com o Oscar e a adoração de muitos), "O gangster" e no chatíssimo "Cruzada". "Robin Hood", seu mais recente lançamento também cai nessa armadilha, com o adendo de ser construído por um roteiro fraco e sofrendo de crise de identidade. Nem parece que estamos falando do mesmo realizador de clássicos como "Blade Runner" e "Alien, o oitavo passageiro". Retomando a parceria com o mala do Russel Crowe, que dá vida a um Robin um tanto burocrático e fora de forma (nada contra, mas é incômodo notar que, à exceção do ótimo "O informante", suas performances são sempre repetitivas), o filme se pauta sobre a origem do mito do "ladrão que rouba ricos para os pobres", numa espécie de prequel. Se levarmos em conta o cuidado na ambientação histórica, muito interessante por sinal (as intrigas na esfera do reinado do rei João), o filme é até digerível, mas o roteiro, mais preocupado em respaldar o espetáculo das batalhas que permeiam a história, vai pelo caminho do clichê em diversas situações, o que acaba revelando a fragilidade de sua narrativa (a forma como o personagem de Robin Hood entra de fato na trama principal, é digna de "Malhação"). Tecnicamente perfeito (a batalha final do desembarque dos franceses na Inglaterra é espetacularmente bem filmada), "Robin Hood" acaba por perder todo o seu potencial por preocupar-se demais em agradar às forças que dominam a bilheteria atual. A grandiloqüência aqui atende pura e simplesmente ao espetáculo. Mas, nesse caso, isso não é sinal de mérito ou relevância.

Dica de Música: "Cemeteries of London" (Coldplay)

Downey Jr é que é de ferro...

Eu só quero saber até quando a superprodução "Homem de ferro" vai ficar dependendo única e somente do carisma de seu protagonista para entregar algum fio de dignidade. Se no primeiro filme - que era uma bobagem, mas admito que divertida - essa máxima o justificou, agora na sua continuação (que obviamente está fazendo muito sucesso) o cenário é o mesmo: muitos diálogos engraçadinhos, cenas de ação arrebatadoras e um Robert Downey Jr cada vez mais à vontade. O problema é que o roteiro é conivente demais com essas premissas e a falta de uma arrojada naquele universo é visível. Isso só resulta num emaranhado de situações forçadas (a razão do embate entre o homem de ferro e seu amigo é absurdamente gratuita) e desperdiçadas (o bom papel de viúva negra, interpretada pela atriz Scarlett Johansson é confuso e deslocado). Por mais que o filme tente levantar uma boa discussão sobre como a onipotência do mito é nociva para o homem, tudo é logo dissipado por esquizofrenias visuais que servem para ilustrar trailers de Comic-Com. Jon Favreau acrescenta pouco com sua direção "clipada" (lembrando que nunca achei isso um demérito), afinal, com um roteiro apático não tinha mesmo o que fazer. É inegável que o filme é bem espirituoso, tem umas boas sacadas (os vilões, vividos por Sam Rockwell e Mickey Rourke, em suas construções, são um ponto alto) e é competente no culto à seus "Vingadores", com suas pistas ao longo da projeção, mas a sua acomodação é irritante como cinema. A questão é saber se o filme é mesmo reverente a figura irresistível de Tony Stark ou o estúdio é que é inseguro para fazer com que seus ovos de ouro alce vôos mais altos.

Dica de Música: "A última palavra" (Ecos Falsos)

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Compreendendo Alice

O cineasta Tim Burton sempre pautou sua obra na falta de concessões ao onírico. E nisso ele plantou seu nome da seara dos grandes artistas de Hollywood, tornando-se uma grife. Mesmo quando dialoga com fábulas e histórias de domínio público (caso do semi-insípido "Planeta dos macacos" e do eficiente "A fantástica fábrica de chocolate") sua assinatura ocasiona num misto de simbologia própria com discurso humanístico. Burton é um eterno interessado no abismo que esconde por trás da fantasia. Das coisas e pessoas. Essa premissa não poderia faltar em "Alice no país das maravilhas" seu mais recente lançamento. A cerne da natureza criativa do diretor é muito forte e o justifica, frente as enxurradas de críticas negativas que a superprodução vem recebendo. Seria este um filme incompreendido? Primeiramente devemos levar em consideração que temos que julgar um trabalho de qualquer artista, mediante a proposta que ele quer levar ao ser analisado. Burton não queria recriar a trama original do livro de Lewis Caroll. Ele estava interessado - até partindo de sua continuação "Alice através do espelho" - em reinterpretar a obra. E nisso o filme é fiel às suas convicções. Os caminhos que o roteiro de Linda Woolverton traçam buscam essa reimaginação. A própria protagonista, vivida pela quase estreante Mia Wasikowska, em sua aparente apatia andrógena, é coerente com a fissuração do cineasta em confrontar um indivíduo deslocado com o mundo (real e imaginário) que o cerca. Quem não se lembra do Edward de Jhonny Depp em "Edward, mãos-de-tesoura", sua obra-prima? Há de se convir que a dramaturgia do filme é irregular em sua construção narrativa (entre cenas desperdiçadas ou excessivas). Depp, que não consegue fazer um filme de Burton sem cair na excentricidade (seria esse o segredo do sucesso da dupla?), parece se divertir na composição de seu chapeleiro maluco, mas o filme é de Helena Bonham Carter, como a esquisitíssima rainha vermelha. Suas cenas incendeiam toda a aquarela visual do filme. Até suas nuances são valorizadas. E, mais uma vez, Burton consegue a proeza de tornar orgânico sua visão lírica de mundo, nos dando a sensação de que aquele mundo sempre foi o de Alice, desde quando tomamos conhecimento da história na infância. É interessante notar que cada detalhe da direção de arte (destaque especial para os figurinos, realmente muito bonitos) parece ser meticulosamente estudado naquele contexto visual. Trabalho de mestre. Talvez "Alice" agrade mais aos olhos que ao coração. Mas até chegarmos a qual conclusão é a mais acertada, estaremos tão imersos no mundo paralelo "Timburtiano" que concluiremos que o processo foi mais interessante que o resultado final. Mas a fábula da Alice não fala justamente disso, de um processo?


Dica de Música: "Everything In Its Right Place" (Radiohead)




Reflexões argentinas...

Não tem como não sucumbir à rivalidade histórica, ao analisar o êxito docinema argentino no mundo hoje, principalmente após ganhar o seu segundo Oscar de filme estrangeiro, com o badalado "O segredo de seus olhos". Não que o cinema daqui fique muito atrás, mas a solidez dos portenhos talvez explique esse alto prestígio. E vamos combinar: "O segredo deseus olhos", de Juan Jose Campanella, é mesmo um filmaço. Campanella, que além de muito talentoso, tem o expertise de ser um diretor recorrente de séries americanas como "House" e "Lei e ordem", é um hábil contador de histórias, principalmente por dar atenção especiala os gestos de seus personagens, pois acredita que o implícito pode explicitar muito mais uma intenção (quem não se lembra da força dramática primordial para o sucesso de seu filme mais famoso "O filho da noiva", que fora muito bem sucedido em nosso circuito de arte, ficando quase um ano em cartaz?). Mais uma vez trabalhando com o ótimo RicardoDárin (um semideus na Argentina), o roteiro, adaptado de um livro de Eduardo Sacheri (que também atuou como roteirista junto com Campanella) fala de um oficial de justiça aposentado que decide escrever um romance baseado em um crime que aconteceu há mais de 30 anos, quando ele trabalhava como assistente da promotora do caso. Tal atitude seria um meio de aplacar sua frustração com a solução do crime na época, um tanto revoltante. Usando como pano de fundo, o turbulento cenário político da década de 70, o diretor extrai de sua fluência narrativa uma verdadeira história de amor e uma reflexão sobre como configuramos o passado na urgência do presente. Essa relação de tempo e de sentimento é muito metaforizado durante o filme. A eficiência de seu discurso se embasa nessa reflexão e no fim o ponto final é transformado em reticências, justamente por acompanhar esse raciocínio das intermitências que acompanham nossas lembranças. Parece que a vida é feita de pendências aguardando uma resolução final. Ricardo Darín e Soledad Villamil dão combustão a esse casal, com uma maturidade ímpar que nos fazem acompanhar com atenção cada gesto de seus atos. O diretor Campanella se mostra ousado em tomadas impressionantes e soluções em aberto. Na acirrada disputa com "A fita branca", o filme saiu vencedor do Oscar. Creio que o filme austríaco seja mais merecedor por sua potencialidade de instigar, mas é inegável que o filme de Campanella justifique a láurea que ganhou, até porque, muito mais do que dar forma a um discurso, o filme consegue refletir sobre o homem e sua relação com o tempo e nós, do lado de cá da tela, olhamo-nos num espelho para desvendar qual seria o segredo de nossos olhos. A resposta talvez indique que pendências temos que resolver para seguir em frente.
Dica de Música: "Blue train" (Tom Jobin)

Caso perdido

Ser cinéfilo pode ser uma tarefa árdua, às vezes. Por mais paixão que se tenha, rotineiramente (e isso em âmbito mundial, não só na seara hollywoodiana) somos reféns de bobagens, pretensões e oportunismos, em filmes cada vez mais chatos, ruins ou insossos. "Caso 39", suspense do diretor alemão Christian Alvart, estrelado por Renée Zellweger, é um destes casos. Na verdade, nem diria que é de fato um filme ruim, mas é sim uma bobagem, que cai na mesmice de seguir os diversos exemplares do gênero, como o clássico "A profecia" ou o recente "A órfã". Zellweger faz uma assistente social que, após livrar uma menina da opressão mortal de seus pais, resolve adotá-la. Óbvio que a menina acaba se revelando um ser diabólico que destrói tudo e todos a sua volta. Só esse argumento já cansa de tão batido e a realização não ajuda muito. Vale ressaltar que a direção é até caprichosa, imprimindo um clima propício de suspense, mas o roteiro é cheio de incoerências e o espectador fica se perguntando como uma atriz de renome como Renée caiu num projeto desses. E o pior são os sustos gratuitos e injustificáveis que pipocam a todo instante, só comprovando a consistência de um pires da história. Enfim, é um filme muito mais adequado para uma decadente sessão de sábado do Supercine...

Dica de Música: "Stranger in Moscow" (Michael Jackson)

terça-feira, 11 de maio de 2010

Aqui a fé é relativa...

O sucesso de bilheteria recorrente dos filmes do diretor Daniel Filho são resultados de suas assertivas escolhas, ou de seu talento, propriamente dito? Os dois fatores configuram uma idéia desta resposta e, mais uma vez, esses e outros paradigmas do diretor, são corroborados vide o enorme sucesso que vem fazendo (em torno de 3 milhões de espectadores) seu último lançamento, “Chico Xavier, o filme”. Com o valioso suporte da Globo Filmes e com a experiência de dialogar com o grande público, dada a sua trajetória na TV, Daniel dirige filmes com o compromisso de alcançar o maior número de pessoas possíveis, e isso não é demérito nenhum. Spielberg casou pluralidade com qualidade e seu nome virou sinônimo de prestígio. E com muita justiça. “Chico Xavier” funciona muito bem no tocante àquilo que se propõe: biografar o médium mais famoso do país, que disseminou a religião espírita e tornou-se uma espécie de mito espiritual para boa parte da população. O problema do filme é que, para respaldar a força de seu personagem, acaba traindo sua própria essência narrativa. O desempenho dos atores em geral, principalmente dos três protagonistas, Matheus Costa, Ângelo Antônio e Nélson Xavier (que mantém uma bem sucedida linearidade de interpretação), são muito bons. Mas o roteiro do veterano Marcos Bernstein, baseado na biografia de Marcel Souto Maior, erra ao desfocar o filme para uma desnecessária trama paralela (que discute a fé através de um casal formado pelos atores Tony Ramos e Cristiane Torloni), tornando toda a situação (principalmente o desfecho) um tanto artificial e desnecessária. E, com alguns equívocos pontuais no todo, Daniel Filho acerta ao colocar uma antiga entrevista real, com o próprio biografado, nos créditos, uma vez que dá certo sentido emocional ao longa. Não à toa, na sessão que assisti, parecia ser o único que não estava visivelmente emocionado no cinema. Diria que o filme percorreu um caminho irregular, principalmente por seu roteiro não confiar plenamente na história de seu mito. Para o grande público isso não faz diferença. Entretanto, para uma produção que se propõe a falar de fé, soa um tanto incoerente não ter confiança em seu próprio discurso.

Dica de filme: “Podes crer” (Cidade Negra - versão “Acústico MTV”)

Ame-o ou deixe-o

No finalzinho da década de 90, um até então desconhecido cineasta indiano, mobilizou o mundo com um dos filmes mais sensacionais da História do cinema: “O sexto sentido”. Logo, com o impressionante sucesso e prestígio, M. Night Shyamalan foi taxado como o último ranço de renovação criativa de Hollywood e tudo que fizera posteriormente fora aguardado com exagerada expectativa (tanto que foi considerado como uma espécie de novo Hitchcock). “Corpo fechado”, seu filme seguinte ao fenômeno “do menino que via pessoas mortas”, é mais uma de suas obras-prima - sua visão iconoclasta do processo de heroicização do homem resultou num filme espetacular - ainda que boa parte do público e crítica não tenha escondido sua frustração pelo excesso de expectativa. A crítica, de uma forma geral, passou a olhá-lo com desconfiança a
partir de seus filmes seguintes. Aliás, sempre há muita discussão a cerca da qualidade de suas produções pós-“Sexto sentido”. Muitos, mas muitos mesmo, críticos e até uma considerável parcela do público o consideram como uma farsa. “Sinais”, seu terceiro filme de expressão, lançado em 2002, só reforçou essa idéia. Boa parte da opinião pública detonou o longa. Shyamalan sempre foi chegado a uma metáfora que exprima a relação do homem e o sobrenatural, ou simplesmente, o desconhecido, e neste filme, o cineasta se vale da paranóia generalizada com a possibilidade de vida extraterrestre, para falar sobre fé. Óbvio que se vale de uma alegoria pautada no entretenimento, mas é visível a substancia que Shyamalan tira do assunto. Mas controvérsia mesmo ele suscitou com o polêmico “A vila”, para mim uma obra-prima incontestável. A sensação de ser manipulado psiquicamente para enxergarmos uma verdadeira crítica ao isolacionismo norte-americano é impagável, e o diretor orquestra essa percepção de forma tão eficiente quanto estimulante. Até o ódio de alguns, com o desfecho-surpresa, é justificável. Seu filme seguinte foi “A dama na água”, que lhe rendeu muita dor de cabeça, uma vez que naufragou na bilheteria e arranhou ainda mais sua imagem nos bastidores do cinema americano. Considero um filme incompreendido. Ele simplesmente quis dar vida a seus contos infantis que só seus filhos conheciam. Sei que foi um projeto extremamente arriscado, mas gostei muito do filme, principalmente se raciocinado como um papel em branco para imaginação. Mas o mundo, neste caso, meio que lhe deu as costas. Seu último filme, lançado há cerca de dois anos, foi "Fim dos tempos”, para mim, seu único filme que sucumbe ao erro de levar-se a sério demais. Defeito este, costumeiramente atribuído ao diretor, mas que sempre contestei; entretanto neste filme, que dialoga com a vertente atual do meio ambiente e afins, seu discurso não se sustentou e o filme - muito bem filmado e fotografado, por sinal (a cena dos operários caindo de cima de um prédio é antológica) - acabou virando uma comédia involuntária.
Agora, depois destes altos e baixos, Shyamalan retorna fazendo sua primeira grande concessão como diretor: estréia em julho (veja o trailer abaixo) sua adaptação do desenho “Avatar”, cujo nome será “O último mestre do ar”. É óbvio que esse lançamento aponta para um novo recomeço do autor/cineasta na seara hollywoodiana. Pelo trailer, vemos que sua estética continua impecável. Seus filmes são muitíssimo bem filmados. Mas confesso que estou receoso, não pelo resultado, mas por não ser um filme “autoral”, como de costume. Se esse possível grande ”blockbuster” servir de ponte para uma espécie de renascimento do diretor, que seja bem vindo. A questão é isso se tornar uma regra imposta, o que ele pode reverter lutando por seus projetos. Gosto demais de seus devaneios e diálogos com a investigação humana e sua relação com o oculto. Creio que ele pague um preço caro por sua originalidade, mesmo quando esbarra em uma tentadora pretensão. Mas aonde enxergam apenas pedantismo, eu vejo inconformismo. Shyamalan não é nem será um Hitchcock, ou um Spielberg. Ele sempre será apenas M. Night Shyamalan, e sua posteridade depende apenas dele.

Dica de Música: "Great Dj" (The Ting Tings)